Prazer e liberdade

O prazer é uma canção de liberdade
mas não é a liberdade.

É o florecer dos teus desejos,
mas não é o seu fruto.

É a profundeza que clama pela altura,
mas não é o profundo nem o alto.

É o prisioneiro que se liberta,
mas não é o espaço que o rodeia.

Sim, na verdade,
o prazer é uma canção à liberdade.

E gostaria de ouvir-te
cantá-la com todo o coração;
mas não gostaria que perdesses
o coração durante o canto.

 

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Kalil Gibran, in “O Profeta”.

Lógica e Persuasão

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Para além da questão das boas razões, existe a questão das razões fortes – ou por outras palavras, a questão de quais as condições que permitem que uma razão prevaleça sobre outra. É que, contrariamente aos interesses das pessoas bem intencionadas, nem sempre são as melhores razões que prevalecem, mas aquelas que agradam a quem está em posição de decidir.

Na filosofia, este problema exprime-se na separação entre lógica formal e lógica informal ou argumentativa: enquanto a primeira estuda as condições de validade de um argumento (isto é, a sua coerência lógica) a segunda estuda as condições que permitem que um argumento, bom ou mau, seja convincente. Este tipo de conhecimentos é posto em prática quando a lógica é colocada ao serviço de boas razões que são apresentadas de forma persuasiva. O que acontece quando o aquele que enuncia um argumento (o orador) se estabelece como uma pessoa credível (ethos), sabe reconhecer e adaptar-se às caraterísticas específicas do auditório que pretende persuadir (pathos) e, claro, faz uso de boas razões articuladas de forma coerente (logos).

Esta é, muito resumidamente, a teoria clássica de Aristóteles. No exemplo do cartoon, poderia-se comentar que o jovem ainda não obteve perante a mãe o crédito necessário (ethos) para exigir uma tatuagem, presumindo-se que ainda depende economicamente da família. Poderia especular-se se uma argumentação mais cuidadosa, baseada noutras razões (logos) poderia ser mais eficaz, mas uma coisa é clara: a mãe, naquele momento, não estava com disposição (pathos) para aquela conversa. Talvez se a apanhasse num dia em que estivesse mais bem disposta!

Sobre a liberdade (Albert Einstein)

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Sei que é inútil tentar discutir os juízos de valores fundamentais. Se alguém aprova como meta, por exemplo, a eliminação da espécie humana da face da Terra, não se pode refutar esse ponto de vista em bases racionais. Se houver porém concordância quanto a certas metas e valores, é possível discutir racionalmente os meios pelos quais esses objetivos podem ser atingidos. Indiquemos, portanto, duas metas com que certamente estarão de acordo quase todos os que lêem estas linhas.

1. Os bens instrumentais que servem para preservar a vida e a saúde de todos os seres humanos devem ser produzidos mediante o menor esforço possível de todos.

2. A satisfação de necessidades físicas é por certo a precondição indispensável de uma existência satisfatória, mas em si mesma não é suficiente. Para se realizar, os homens precisam ter também a possibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artísticas sem limites restritivos, segundo suas características e aptidões pessoais.

A primeira dessas duas metas exige a promoção de todo conhecimento referente às leis da natureza e dos processos sociais, isto é, a promoção de todo esforço científico. Pois o empreendimento científico é um todo natural, cujas partes se sustentam mutuamente de uma maneira que certamente ninguém pode prever.

Entretanto, o progresso da ciência pressupõe a possibilidade de comunicação irrestrita de todos os resultados e julgamentos – liberdade de expressão e ensino em todos os campos do esforço intelectual. Por liberdade, entendo condições sociais, tais que, a expressão de opiniões e afirmações sobre questões gerais e particulares do conhecimento não envolvam perigos ou graves desvantagens para seu autor. Essa liberdade de comunicação é indispensável para o desenvolvimento e a ampliação do conhecimento científico, aspecto de grande importância prática. Em primeiro lugar, ela deve ser assegurada por lei. Mas as leis por si mesmas não podem assegurar a liberdade de expressão; para que todo homem possa expor suas idéias sem ser punido, deve haver um espírito de tolerância em toda a população. Tal ideal de liberdade externa jamais poderá ser plenamente atingido, mas deve ser incansavelmente perseguido para que o pensamento científico e o pensamento filosófico, e criativo em geral, possam avançar tanto quanto possível.

Para que a segunda meta, isto é, a possibilidade de desenvolvimento espiritual de todos os indivíduos, possa ser assegurada, é necessário um segundo tipo de liberdade externa. O homem não deve ser obrigado a trabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal que não lhe restem tempo nem forças para as atividades pessoais. Sem este segundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expressão é inútil para ele. Avanços na tecnologia tornariam possível esse tipo de liberdade, se o problema de uma divisão justa do trabalho fosse resolvido.

O desenvolvimento da ciência e das atividades criativas do espírito em geral exige ainda outro tipo de liberdade, que pode ser caracterizado como liberdade interna. Trata-se daquela liberdade de espírito que consiste na independência do pensamento em face das restrições de preconceitos autoritários e sociais, bem como, da “rotinização” e do hábito irrefletidos em geral. Essa liberdade interna é um raro dom da natureza e uma valiosa meta para o indivíduo. No entanto, a comunidade pode fazer muito para favorecer essa conquista, pelo menos, deixando de interferir no desenvolvimento. As escolas, por exemplo, podem interferir no desenvolvimento da liberdade interna mediante influências autoritárias e a imposição de cargas espirituais aos jovens excessivas; por outro lado, as escolas podem favorecer essa liberdade, incentivando o pensamento independente. Só quando a liberdade externa e interna são constantes e conscienciosamente perseguidas há possibilidade de desenvolvimento e aperfeiçoamento espiritual e, portanto, de aprimorar a vida externa e interna do homem.

in Escritos da Maturidade: artigos sobre ciência, educação, relações sociais, racismo, ciências sociais e religião. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges – Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira, 1994.

“A fetichização do trabalho está a tornar-nos infelizes. Vamos aprender a viver novamente”

Tradução do artigo de Anna Coote para o jornal The Guardian, original disponível em https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/oct/26/fetishisation-work-miserable-long-hours-poor-pay.

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As crescentes pressões no trabalho estão a cobrar um pesado tributo na vida em casa. Os empregados dizes que os patrões exigem que coloquem o trabalho à frente da família, e espera-se de muitos que estejam disponíveis 24 horas por dia. Mais do que uma em quatro pessoas  trabalham mais horas do que desejam, segundo o último inquérito YouGov.

Não é um quadro risonho: uma economia onde altos níveis de stress e ansiedade são normais, onde as pessoas adoecem porque perderam o controlo sobre o seu tempo, onde os casais são afetados e as crianças sofrem. E, no entanto, é um quadro que somos convidados a aplaudir. Os nossos líderes políticos idolatram os “lutadores”, os “trabalhadores árduos”, não os “pais descontraídos, carinhosos”, por exemplo. Quanto mais tempo e mais arduamente trabalharmos, supostamente mais admiráveis somos.

Sou suficientemente velha para me lembrar da hora de almoço. Quando os meus colegas e eu íamos a um restaurante próximo durante pelo menos uma hora, engolíamos uma refeição completa e provavelmente um copo de vinho. Hoje em dia, como a maior parte das abelhas-operárias, eu continuo à secretária com o meu garfo e o meu Tupperware, de nariz colado ao ecrã. E fiquei tão hipnotizada com a cultura moderna do trabalho que ficaria bastante chocada se encontrasse um colega a comer fora no intervalo de almoço. Nada de bebidas, siestas ou recreio.

Parece um pouco estranho quando ouvimos falar tanto sobre automação e o “fim do trabalho“. Se os robots estão a caminho,  porque é que estamos tão apressados? Na verdade, é tudo parte do mesmo quadro.

Todos os principais partidos políticos do Reino Unido insistem que a única economia bem sucedida é aquela que cresce, de preferência mais rapidamente que as outras economias.  O crescimento exige maior produtividade: obter maior output por cada unidade de input. O sistema é ávido de novos recursos, mas os trabalhadores e as máquinas devem fazer mais por menos. Processos mais eficientes (incluindo mais robots) reduzem a quantidade de input humano requerida. Por isso aqueles que têm empregos precisam trabalhar mais arduamente – e durante mais horas – para segurarem aquilo que têm e manterem a economia a crescer.

Entretanto, e porque os robots ainda não conseguem fazer tudo sozinhos, há uma nova enchente de trabalhos de baixo nível com zero horas de contrato, pagamentos insultuosos e ausência de proteção. Esta classe foi chamada de “precariado” e grande parte dele prospera com a sobrecarga de outros trabalhadores. Ela leva as pessoas a casa de noite (Uber), entrega refeições rápidas (Deliveroo) e repara os objetos domésticos (TaskRabbit). Muitos trabalhadores precários precisam ter dois ou três trabalhos só para pagar as suas despesas. Eles estão, portanto, também debaixo de uma forte pressão, muitas vezes divididos entre a pobreza e um intolerável equilíbrio entre vida e trabalho.

O que é que podemos fazer para corrigir isto? Em primeiro lugar, retomar o controlo do local de trabalho. Isto significa que os trabalhadores em todas as áreas precisam encontrar meios de se organizar e construir direitos de negociação. Para o precariado flexibilizado, pode significar construir novas plataformas digitais que rivalizem com os gigantes tecnológicos que têm monopolizado o mercado até agora.

Em segundo lugar, nunca devemos esquecer que este é um desafio tanto para homens como para mulheres. Muito do stress e descontentamento que as mulheres experienciam no trabalho deve-se ao facto de assumirem a maior parte do trabalho doméstico não-pago. Enquanto os homens não partilharem realmente o trabalho doméstico e o cuidado das crianças, dificilmente serão fortes defensores de um regime mais humano no local de trabalho.

E em terceiro, vamos caminhar em direção a menos horas de trabalho pago para todos, não apenas para as mulheres. Há muito que isto tem sido defendido pela New Economics Foundation e há cada vez mais provas dos seus vários benefícios. Ninguém deveria ter que trabalhar mais do que quatro dias ou 30 horas por semana, mesmo na economia atual com os seus horários. Uma vez que a automatização elimina a existência de alguns empregos, outros poderiam ser criados para cobrir as horas deixadas vagas.

Deveria ser uma mudança gradual, com um impacto mínimo no pagamento. Por exemplo, suponhamos que todos os trabalhadores com mais de 50 anos reduzem uma hora na sua semana de trabalho a cada ano. Se começarem com uma semana de 40 horas, poderão estar a trabalhar 30 horas aos 60 anos e 20 horas aos 70. E suponhamos que todos os jovens que entram no mercado de trabalho pela primeira vez começam com uma semana de trabalho de 30 horas – e continuam assim, com cada novo grupo a juntar-se aos anteriores, até se tornarem no novo “normal”. E se todos os trabalhadores em empresas onde  há uma ronda anual de negociações pagas  trocassem um pouco mais todos os anos  por um menor crescimento salarial?

Tudo isto deveria andar de mãos dadas com um salário mínimo mais elevado,  um abono familiar mais generoso e um “rendimento social” mais seguro em termos de serviços de elevada qualidade que são financiados e fornecidos coletivamente (educação, cuidados sociais e de saúde, cuidados infantis, alojamento, etc.). Se péssimos salários forçam as pessoas a trabalhar dia e noite, o problema é o pagamento: não é um argumento sensato contra menos horas de trabalho.

Se as 30 horas de trabalho se tornarem na nova semana de trabalho padrão, para mulheres e homens, em todos os tipos de empregos, desde médicos a condutores de entregas, desde professores a moços de recados, haveria muito menos stress e ansiedade no local de trabalho e em casa. Teríamos mais controlo sobre as nossas vidas, mais tempo para cuidarmos uns dos outros. Poderíamos abrandar e relaxar mais – e depender menos de viagens e fast-food intensivas em carbono. Teríamos mais tempo para estar ativos politicamente e nas nossas comunidades. Teríamos mais tempo para defender uma nova cultura do trabalho que respeite o amor, a família e a amizade ao invés de fetichizar o “trabalho duro”. E mais importante do que tudo isso poderíamos construir uma economia que habilita as pessoas a prosperar, ao invés de se fixar exclusivamente no crescimento.

 

Anna Coote é a responsável de política social do Nef – the New Economics Foundation. Uma destacada analista, escritora e ativista na área da política social, Anna é comissária para a saúde na Comissão do Reino Unido para o Desenvolvimento Sustentável (desde 2000). Foi diretora da política de saúde no King’s Fund em 1998-2004 antes de se juntar à Comissão de Cuidados de Saúde para liderar o seu trabalho no envolvimento de pacientes e do público.

Perder o medo

“A melhor maneira de alcançar a consciência suprema é perder o medo da vida. Perder o medo ao que nos falta. Sair do terror económico. Perder o medo à loucura. Etc. Como é que se perde o medo? Dizendo-te: «Sempre que tenho que escolher entre fazer e não fazer, devo escolher fazer, ainda que me engane». Se nada faço frustro-me. Se faço e me engano, pelo menos fico com a experiência.”   

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Alejandro Jodorowsky

Jorge Luis Borges: “Arte poética”

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como um rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

tradução de Ruy Belo, in JL Borges, “Poemas escolhidos” (Dom Quixote, 1971)